Bruce Sterling é um escritor, e dos meus preferidos, e que junto a William Gibson, considerado por mim um mestre, criou a fantástica obra “The Difference Engines” e deu início ao movimento literário steampunk. Isso foi em 1991. Mas isso não importa agora. Stering é lembrado como um dos únicos autores do subgênero o qual ajudou a criar, o cyberpunk, a escrever personagens incrivelmente ingênuos, que lutam por princípios e ideologias as quais são fortemente apegados, além de disponibilizarem de um incomum senso de moralidade.
Talvez seja por isso, que no início de “Piratas de Dados”, Laura Webster, ao tropeçar em um fio camuflado pelas areias da praia na qual corria, tomada por um sentimento de raiva e indignação, o investigasse e tentasse tirá-lo da sua praia, para que nenhum turista desavisado tivesse o mesmo destino que ela. Ela puxa o fio, que originava de um videocassete exposto a 20 anos de maresia, sais e outros elementos naturais, e retira o objeto da areia. Chama então por uma lata de lixo, que prontamente dirige-se à jovem executiva e recebe dela a velha sucata. O receptáculo agradece a moça pela sua boa ação e pergunta se ela desejaria receber a recompensa por manter a praia limpa. Laura responde prontamente que não, que a lata deixasse a quantia para os turistas.
O que mais me chamou a atenção nesse trecho não foi nada relacionado à história em si, apesar de ser uma passagem até engraçada se você imaginá-la, principalmente pela lata de lixo andante e falante. O meu ponto é que Laura, usuária, por assim dizer da praia futurista em questão, em dois momentos pensa não nela, mas sim nos turistas que visitariam o local. Mesmo que não fossem citados o sobrenome da personagem nem o nome do autor do livro, poderíamos facilmente concluir que Laura não era, nem jamais poderia ser, brasileira. E a praia futurista em questão, não poderia de forma alguma ser no Brasil.
Primeiro, por que uma lata de lixo semisentiente, com rodas, voz engraçada e que distribui recompensas em dinheiro jamais funcionaria nesse país. Fosse agora, em 2009, fosse em 2023, ano em que se passa o livro. No Brasil, “lata de lixo” assim chamado por Laura, receberia outro nome, provavelmente um bizarro, e não duraria mais do que uma semana funcionando. Ou seria destruído, jogado ao mar, enterrado na areia pelos brasileiros, ou simplesmente roubado para que suas peças fossem vendidas. Talvez, se tivesse a sorte de ser roubado por um dono inteligente – e existem brasileiros assim, sério. Principalmente para fazer alguma tramóia – que o reprogramaria para receber todo o dinheiro do robô.
Segundo que Laura, se brasileira, jamais retiraria o videocassete dali. Ao menos, não pensando no bem estar dos turistas. Laura brasileira o deixaria ali ou o camuflaria ainda mais aumentando assim as chances de pegar um turista desavisado. E provavelmente ficaria parada ali, sem nada fazer, esperando que a sua primeira vítima tivesse o mesmo fim que ela teve anteriormente. E depois riria ao presenciar a cena.
É o que eu faria.


Nenhum comentário:
Postar um comentário