quarta-feira, 20 de maio de 2009

Fogo no lixeiro

Na quinta série eu e mais três amigos tivemos a brilhante idéia de tacar fogo nos lixeiros do banheiro masculino do colégio. Ficamos meia hora depois da aula criando coragem pra fazer isso, até que um amigo meu foi la e fez. Em 2 minutos tinha faxineira, alunos e uns seguranças la na porta para ver o que tinha acontecido. Achamos aquilo mágico e fizemos várias outras vezes, mas para dar uma disfarçada a gente tocava fogo em outros lixeiros: banheiro da educação física, banheiro dos alunos do primário, o banheiro que ficava perto da sala dos professores, chegamos ao cúmulo de entrar no banheiro das gurias e tocar fogo também. 

Foi ai que as coisas começaram a se complicar. Nós percebemos que tínhamos que parar, até ja faziam 4 dias que não tocavamos fogo em um lixeiro. Mas ai nós 3 concordamos que tinha que rolar a saideira, e escolhemos o único banheiro que ainda não tínhamos tocado fogo. O da Igreja do colégio (era colégio católico e tinha uma igreja própria dentro dele). Não contentes com isso, queriamos inovar. Pensamos em fazer uma "cadeia" de lixeiros incinerados, e pra isso usamos álcool ( que eu brilhantemente levei na mochila para isso, dentro de uma garrafinha de água). Ai fomos la, pegamos 3 lixeiros, um representando cada membro de nossa fraternidade pirotécnica e enchemos de papel. Ai usando o álcool fizemos uma "trilha" levando a cada lixeiro, com um pedaço de papel higiênico caindo para fora do lixeiro para servir de pavio. 

Acendemos o fósforo e jogamos no primeiro. O fogo acendeu e foi queimando o papel, chegou no "pavio" que levava para a poça de alcool de fora, que levava ao outro pavio e ao outro lixeiro e assim por diante. Os três idiotas, vendo a invenção genial funcionar, começaram a rir que nem uns retardados. Um amigo meu, na felicidade do momento acabou chutando a garrafinha de alcool, que derramou o que restava próximo aos lixeiros. Acabou que fizemos uma poça de alcool flamejante em volta dos lixeiros, que também pegavam fogo. 

Acho que ficamos rindo por mais alguns segundos, até perceber a merda homérica que fizemos e só ai que corremos. Talvez por estarmos dentro da igreja, aconteceu o milagre de ninguém ver os três moleques correndo desesperados para fora. 

No dia seguinte a coordenação passou por todas as salas, falando que já estavam investigando quem estava fazendo isso e já tinham os nomes, mas que quem soubesse alguma coisa podia ir La na coordenação e falar. 
Pensamos que era a oportunidade perfeita para jamais nos pegarem. Inventamos um culpado. Criamos do nada, tomando cuidado para não se parecer com ninguém que conhecíamos, pensando em fisionomia, idade, nome e tudo mais. 

Chegamos ao seguinte meliante: Yuri, baixinho e loiro, olho azul, mais velho que a gente, não usava uniforme do colégio (para dificultar as coisas, como se não fosse aluno de lá), talvez sexta ou sétima série, e que fumava. Já usando o cigarro para associar ao fogo. 

Legal, chegamos na coordenadora e inventamos uma historia que um dia vimos tal pessoa sair do banheiro e blá-blá-blá. Ela agradeceu e disse que era um gesto muito legal o nosso, de denunciar aquele delinqüente. 
No dia seguinte fomos chamados novamente. Chegamos na sala da coordenadora e estava ela e um moleque sentado na cadeira oposta. Ele era loiro, baixinho e de olho azul. Também aparentava ser mais velho. A mulher olha pra gente e fala: 

- Meninos, esse é o Yuri, da sexta série. Foi ele que vocês viram? 

Caras... a gente não sabia o que fazer. Nós simplesmente criamos uma pessoa para botar a culpa sem conhecer ninguém parecido com ela. Pegamos as características de pessoas mais afastadas do nosso circulo social e montamos o personagem. E demos um nome meio que incomum. 

Pois a filhadapulta da coordenadora conseguiu achar a exata descrição que a gente deu.

Não íamos ferrar com o cara, ai todo mundo desconversou, disse que não era ele e tal. Ainda lembramos que ele não tinha uniforme do colégio e sugerimos que era aluno de fora, de outro colégio, sei lá. 
Deve ter sido ai que ela começou a desconfiar da gente. Poucos dias depois fomos chamados mais uma vez na coordenação e dessa vez eles já sabiam de tudo. Chegaram intimando, botando medo e ameaçando. 

Negamos bravamente por horas, inclusive quando ela nos separou e inquiriu um por um. Ninguém dedurou ninguém. Quando nos botaram na sala juntos novamente e sozinhos, conversamos rapidamente e decidimos que íamos falar que só tocamos fogo nos lixeiros uma vez e foi depois de ter começado os "incêndios". Dissemos que fomos influenciados pelos mais velhos e que a gente só queria ver como era. 

Resultado da nossa aventura: cada um teve que pagar um lixeiro (5 reais e pouco), recebemos acompanhamento da psicóloga todo final de aula por 2 semanas pois ficaram com medo pela nossa fácil capacidade de se deixar influenciar pelas traquinagens da vida adolescente (sério, a psicóloga ate conversou sobre drogas, sexo e pá, e a gente na 5ª série, 11 anos e com cara de WTF pra tudo aquilo), Yuri ficou anos sem saber como diabos foi chamado pela coordenação, e nossos pais ficaram preocupados, mas felizes por termos apenas tocado fogo em lixeiros e não se drogado. E ganhamos uma história para contar em rodinhas de amigos a vida toda.

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