Algumas vezes, durantes os dois anos que se seguiram, eu lembrei eles dessa tese quando nos encontrávamos. Nenhum deles lembrou o autor dela, só alguma ou outra parte. Eu era o que mais lembrava. Um deles sugeriu que teria sido minha a tese na época. Outro que eu deveria tomá-la e desenvolvê-la. Pensei whattahell e segui o conselho.
A tese é a seguinte: imagine um filme. Existem diversos tipos de filme. Comédia, ação, terror, suspense, drama, aqueles filmes que tem de tudo um pouco, faroestes e por aí vai. Focalize o penúltimo, o do tipo all-in-one. Existem personagens nesse filme. Personagens podem ser divididos em protagonistas (herói ou antagonista), secundários (que ninguém liga ou que chegam a chamar mais atenção que os principais) e figurantes (a manézada).
O filme, obviamente, gira em torno do protagonista, seja um ou mais deles. Os secundários tem alguma relação com eles querendo ou não, e os figurantes estarão onde eles estiverem.
É apenas um filme, e não dois, três, quatro, etc. Não há um contrato que lhe force a participar de uma trilogia ou trabalhar de agente secreto em 25 deles. Sendo apenas uma obra, suas chances de aparecer na tela são poucas.
A história vai, inevitavelmente, girar em torno do protagonista. Você sabe quem é um protagonista quando as coisas acontecem em volta dele, ou por motivos ligados à suas ações, ele que gira em volta delas. Os secundários aparecem quando é necessário criar uma relação com o protagonista e seu mundo, ou suas ações. Os secundários conversam com o protagonista na frente da banca de jornal, tomam um café com ele numa lanchonete, ou uma cerveja depois do trabalho. Os secundários podem morar na frente do protagonista, ser seu parente, amigo, chefe, subordinado, inimigo, namorada/o ou o tiozão style que em algum momento ensina a coisa mais importante do filme para o protagonista. Por exemplo, Sean Connery. Alguns secundários podem ir conquistando mais destaque na vida do protagonista e no enredo do filme. Alguns secundários podem se achar o principal, quando na verdade não bastam de um simples suporte. Alguns secundários podem criar situações que vão chamar a atenção do protagonista e forçá-lo a participar/resolver dela. Isso não significa o ganho de passagem de secundário para protagonista. Ele pode estar sendo apenas um simples elemento de plot para o desenvolvimento do protagonista.
Os figurantes estão ali quando o protagonista atravessa a rua. São os que param no sinal do lado dele e ficam lendo jornal ou tomando refrigerante. São aquelas cabeças ou costas de duas mesas atrás na lanchonete. É aquela atendente que anota o seu pedido e entrega o troco. Eles estão ali apenas para dar mais verossimilhança ao plot, para fazer aquele mundo funcionar. A sua existência não muda de forma alguma o enredo do filme ou a vida do protagonista.
Eu não lembro onde a conversa foi parar naquele dia, acho que quando o cara avistou as goiabas ela definitivamente morreu. Não sei se chegamos à uma auto-análise de onde cada um se encaixava, eu só sei que aquilo ficou na minha cabeça por 4, quase 4 anos. Talvez tenha mudado minha forma de fazer as coisas, de pensar, de agir. Talvez não. De qualquer forma, não vejo nada de interessante em um papel secundário, a não ser que você assuma um papel de um espadachim espanhol chamado Juan Sanchez Villa-Lobos Ramirez que na verdade é egípcio, seja amigo do Ferris, o primo bêbado do eslavo ou o cara que grita "Toga!". Também não vi o salto de pára-quedas influenciar ninguém de forma efetiva e nem servir de evento para algum outro subplot ou dar sequência à um enredo de terceiros. E figurantes não pulam de pára-quedas a não ser em filmes de guerra. E como também só vou em lanchonetes para comer, não leio jornal e nem atravesso na faixa, me sinto mais tranquilo.
Esse texto ficou no meu PC durante quase um ano. De seis meses a um ano. Eu nunca postei porque nunca pensei que estivesse pronto. E não mudei minha opinião. Talvez faça dele uma trilogia, pois ainda tenho muito a contar e a pensar.
Esse é o meu filme. Ele começou lá atrás, eu comecei a contá-lo aqui. Qual o seu filme? Quando você começou a narrá-lo? Se não, quando pretende? Você vai narrá-lo? Ou você prefere aparecer no fundo do salão?


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