Cinquenta e seis dias atrás eu iniciei um documento que salvei na minha pasta de documentos, pois pensei que não era aquele o momento de escrevê-lo.
Esse documento fala sobre a Copa do Mundo. Eu inicio ele dizendo que faltavam, naquele exato momento em que ele começava a ser escrito, 25 dias, 1 hora e 39 minutos para o início da Copa. Eu digitei uns três parágrafos e falei sobre o futebol, a importância dele para o mundo e para o Brasil e como a nossa seleção é a única no mundo a usar a palavra “Seletos” para designar-se a si mesma. Falei também do porque aquilo era importante para a nossa seleção, e como aquilo impunha um respeito para nós mesmo e para os outros.
Eu deixei de lado o texto, pois achei que tinha mais o que falar, mas não sabia o que. Imaginei que nos dias que seguiam eu teria algum assunto, e até me vieram algumas coisas, mas acabei não escrevendo.
Não desenvolvi no início da copa, nem na metade, nem antes do primeiro jogo do Brasil e nem depois dele, e tão pouco no segundo, terceiro, quarto ou quinto. Nem antes nem depois de quatro deles. Nem antes de cinco.
Inevitavelmente, eu venho falar do depois do quinto jogo, pois, se em algum momento decidi falar sobre isso, foi depois. Então depois é depois, após, o contrário de antes, pois antes dele só imaginamos e predizemos, só fantasiamos e pouco pensamos na realidade. Não pensamos na verdade.
Ou pensamos e nem nos tocamos disso. Eu pensei. E até comentei sobre as verdades que apareceram, e elas apareceram antes do quinto jogo, e depois fui perceber, elas apareceram lá bem antes da Copa, meses antes. Um mês, ou 45 dias, ou algumas semanas.
Lá, bem lá longe, as verdades surgiram. Não foram as verdades do “tinha de levar esse, esse e esse” nem tão pouco “não podia levar esse e nem aquele”. A verdade que eu vi, e só depois percebi – durante a Copa – foi a verdade da mídia brasileira, e o quanto eu desprezo ela com o mais profundo desdém.
E quando percebi isso, passei a torcer mais. Torcer duas, três, quatro vezes mais. Eu torcia pelo título, pelo seis. Passei a torcer também por um cara, e depois por outro, e também por outro.
Torcia pelo Lúcio, e isso ficou claro desde o início do blog. Eu já falei sobre ele, fiz uma homenagem, dizendo que ele mereceu levantar a taça das Confederações, e que dias antes tinham criticado ele. Ai ele foi lá e calou a boca de todo mundo. Épico. Um ano depois, hoje, agora, a poucos dias e semanas, elogiaram ele. A mídia que eu desprezo, por acaso, compartilha de minha opinião, e também elogiou e continua elogiando ele. No entanto, ele não tem taça nenhuma pra levantar. Mudou muita coisa.
Eu torcia pela Seleção, e também torcia pelo Lúcio. Ele tinha que levantar aquela taça. Ele tinha que fazer milhões em todo o mundo engolirem seco oito anos de crítica. Isso lava a alma de qualquer ser humano. Mas, infelizmente, isso não aconteceu. Ele pode ainda fazer isso, e com mais epic win agregado, fazendo 12 anos de críticas descerem quadrado milhões de esôfagos adentro. Mas não sei se vai acontecer.
Lúcio é o dois. Seleção o um. Três e quatro vêm juntos, não pra economizar linhas, pois fodam-se elas, mas porque três e quatro explicados e relacionados juntos tem uma razão de ser.
Três e quatro são Dunga e Felipe Melo. Sim, eu torcia para eles. Do primeiro ao último dia, e ainda estou torcendo, e por mais triste que eu esteja, um resquício de esperança ainda me faz cultivar essa felicidade.
Dunga fez tudo certo. Yep, ele fez tudo certo. Não é que ele não tenha errado, ele até pode ter, mas isso é uma questão de perspectiva. Depende de qual ângulo subjetivo você vê isso. Dependendo da perspectiva, ele pode simplesmente ter deixado de acertar um pouco mais.
Ele fez tudo certo, tudo mesmo, e mais um pouco. Ele escrotizou a mídia brasileira, e ela merecia ser escrotizada. A mídia brasileira precisa entender que o poder deles sobre a informação na Era dela é mínimo.
A Informação, na era que ganhou o nome dela, mudou. Ela pode ainda ser produzida por pessoas, e isso nunca vai mudar. Mas ela possui uma nova característica, ela pode, diferente de todas as coisas, – ou, vá lá, considere exceções se quiser, e elas devem existir – gerar a si mesma. Espontaneamente.
Você tem de entender isso. Ou tudo bem, não precisa entender. Talvez esse conhecimento não influencie de nada a sua vida, como tantas outras coisas. Mas quem lida com a informação, bom, essas pessoas TEM de entender isso. Tem de aprender a respeitar esse novo fenômeno do universo, saber como ele age, o que ele fez, o que vai fazer. Tem de dar as mãos, dar um tapinha nas costas, ser amigo dele.
A única coisa que você não pode fazer, é manipulá-lo, pois isso, na era Dela, é impossível. E é isso que algumas pessoas tem de entender.
Essas pessoas, como muitas outras, não vão aprender isso por livre e espontânea vontade. Alguém precisa ensinar isso a elas.
E em toda a nossa história no mundo, que começa lá atrás em período indeterminado e vai até hoje – o aqui e o agora – nenhum outro momento foi mais propício para que isso acontecesse do que durante a Copa do Mundo. E a única pessoa que poderia ter feito isso eram na verdade duas: Dunga e Felipe Melo. Sério.
Isso aconteceria quando o Felipe Melo, aos cento e dezenove minutos e cinqüenta e três segundos da prorrogação, chutasse a bola numa distância de 38 metros do gol, acertasse o ângulo direito, e, até a quarta parte de seis que compreendem um segundo, o mundo, por inteiro, seria dominado pelo mais absoluto e completo silêncio.
Do final da quarta parte desse segundo, até o final da sexta, a informação seria gerada espontaneamente, e o mundo, apesar de tomado pelo mais ensurdecedor dos barulhos que na verdades é a junção tantos outros mais as vuvuzelas, ficaria, também, em silêncio. E ai algumas pessoas que não entendiam que a informação nasce, desenvolve, morre e nasce de novo... bem, eles entenderiam que ela faz tudo isso. Sem precisar deles.
Acontece que, infelizmente, ou felizmente, aquela freqüência determinada que o Universo atinge de quatro em quatro anos humanos, entre o sexto e o sétimo mês do calendário romano, e que propicia um horizonte de eventos absolutamente imprevisível, quis que essa possibilidade de realidade alternativa gerada de pensamentos ou ações não fosse a que regeria o nosso presente universo, a nossa presente realidade.
A nossa realidade e o nosso universo, no momento, são absolutamente diferentes dessa previsão hipotética que muito poderia tornar-se história. Eu não sei dizer se isso é bom ou ruim. Numa análise inicial, considerando só o até aqui e agora, ela é bem ruim. Pelo menos para mim.
Pois, diferentemente daquilo que eu mais desejei, as pessoas que deviam aprender de nada aprenderam sobre aquilo que deveriam. Elas na verdade acham que acertaram, e que alguém errou.
O que me tranqüiliza agora é o meu apego na teoria quântica de que tantas outras realidades e universos se formaram a partir desse momento, e que uma outra, hipotética, que imaginei e quem sabe possa o universo e a realidade regentes terem tomados como a correta, possa se concretizar daqui a quatro anos.
E essa hipotética realidade, sem mais delongas ou linhas desnecessárias, é simples e puramente isso:
Felipe Melo capitão do Hexa.
E ai todo mundo que procrastinou mais quatro anos de aprendizado vai realmente entender. Vai olhar para si mesmo, dizer “é...” e depois um outro “É.” final e absoluto, a mão apoiada num rosto com cara de cu. E vai olhar lá pra trás, lá para quatro anos antes, e perceber que um erro anterior tornou-se o mais absoluto acerto. E que isso torna ele, na verdade, um acerto desde o início. E que poderiam ter considerado isso, caso a perspectiva fosse considerada.
E então Dunga e Felipe Melo finalmente vão ensinar a quem ainda faltava aprender, que dentre coisas e mais coisas que regem nossas vidas, a ironia vez ou outra reina absoluta, as vezes dia aqui dia ali, as vezes de quatro em quatro anos.
E, acima de tudo, que aqui é pé na porta e soco na cara.


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