Alguém chegou e pediu para o cara que escrevesse sobre sentimentos, mais especificamente, sobre o sentimento de um mal-estar preponderante e forte. Ele falou de cinza, e disse que todo mundo usava cinza, e que o mundo era cinza. Eu nunca entendi porque usam o cinza para isso. Talvez por ele representar a falta de cores, uma vez que branco e preto - que poderiam representar isso - são simbolismos para alguma coisa que o autor queira.
Eu sempre pensei no cinza como um estado ou momento entre o preto e o branco. Do tipo decisões. Você toma decisões pretas, decisões brancas. Geralmente é assim. Eu gosto de fazer com que tomem decisões cinzas. Elas não são heróicas, e na maioria das vezes, são éticamente contestáveis. É claro que estou falando num contexto absolutamente ficcional.
Ai pediram pra guria escrever sobre sentimentos também, mas ela tinha uma história pra contar. Ela começou falando de frio, e de como os dentes dela cerravam-se na tentativa de evitar que se chocassem um contra os outros. Nem a fogueira na frente dela, trepidando e estalando, servia seu uso de ser. Ela continuava com frio.
Frio é usado para representar o frio. Você diminuiu a temperatura do cenário, coloca o personagem numa situação fantástica. Talvez levando um tiro. Dizem que levar um tiro faz as pessoas sentirem frio.
Eu descobri que você pode sentir frio das mais diversas maneiras, inclusive com alguém lhé jogando na cara uma hipótese absurda e natural da natureza humana. E essa pessoa ri pra caralho de você por causa disso. Mas você sente frio. Já falei sobre isso.
Os dois usavam e abusavam da formalidade gramatical. Eu admito que uso também, mas só para não deixar a frase feia. Sempre achei que quanto mais linhas melhor, quanto mais palavras usadas para dizer a mesma coisa, também. Recentemente meio que mudei essa concepção. O legal são poucas palavras, ou, vá lá, até que muitas palavras, mas num ritmo rápido e ligeiro, dando uma sensação de dinamismo que só pode ser alcançada por uma mente muito preguiçosa.
Não sei se isso é melhor, mais interessante, mais legal, mas é o que estou fazendo agora. Na verdade estou fazendo os dois. Enrolando e dinamizando. Eu acho. Estou no meio da linha que separa o oito do oitenta, os dois extremos, a linha cinza. As vezes penso que é interessante continuar seguindo por ela. E que se foda o resto.


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