Isso deve fazer uns 7 anos. Na época estávamos na sétima ou oitava série. Não lembro bem e não to afim de contar nos dedos, mas isso não importa. Foi exatamente no período que começou aquela onde de lan-houses no Brasil, talvez em outros estados tenha acontecido antes, até. Florianópolis adora ser atrasada.
Abriu a primeira lan de Florianópolis, era da franquia Monkey. Meu amigo e os irmãos foram uns dos primeiros cadastrados, números cinqüenta e poucos – o meu era 212 – o maluco gostou tanto daquilo, isso era uma quinta feira, que no dia seguinte chegou na sala de aula falando das maravilhas de Cê Ésse. Pelas palavras dele era algo fantástico, 20 pessoas com seus avatares virtuais se degladiando em arenas de carnificina que iam da desértica Dâst às favelas do Rio.
E era mesmo. Aquilo deu um novo sentido à brincadeira de Polícia e Ladrão, com a diferença que você não tinha que correr atrás de ninguém, e sim sentar a bala neles. Não importava qual o seu time, “CeTê” ou “Terror”, importava matar mais e morrer menos. Eu achava que aquilo devia ser tão emocionante quanto transgredir a Lei na vida real. Descobriria mais tarde que estava enganado.
Isso vai parecer nerdisse extrema, mas nós nos reuníamos na Monkey todo sábado de manhã, lá pelas 9 horas e aguardávamos até que ela abrisse entre as 10 e 10 e meia da manhã.
Mas não éramos os únicos. Isto é, nas primeiras semanas até que fomos, mas no passar do tempo até as pessoas “normais” começaram à fazê-lo. Amanhecer na porta da lan-house. Sentimos-nos menos nerds e mais sociáveis naquela época. Uma vez tinha tanto nego junto que mais de cinco pessoas tentaram passar pela porta de vidro ao mesmo tempo e a derrubaram. Mas isso é outra história.
Então, continuando, para aproveitar essas tardes de sábado, o pessoal jogava por duas ou três horas na Lan, almoçava e ia pro cinema, ou invadia minha casa pra comer Hershey’s, ver filmes, jogar Winning Eleven e GTA San Andreas.
Delinquentes de cabeça fraca que éramos, talvez influenciados pela bandidagem virtual de GTA, aproveitávamos aquelas tardes para praticar nossos atos de delinqüências juvenis. Aquelas coisas retardadas que qualquer moleque faz. Explodir rojões perto de hospitais, furar pneus de carro, riscar a lataria com moedas, tocar a campainha e sair correndo, passar trotes de orelhão, explodir lixeiros com foguetes 12x1.
Em um desses sábados resolvemos experimentar como seria um rojão dentro de uma latinha de coca cola, dentro de um lixeiro. A idéia era produzir uma granada de estilhaços caseira. Procuramos uma rua mais deserta. Coincidentemente era uma perto de onde eu morava. Estávamos em seis delinqüentes, o bastante para cobrir todas as saídas da rua, checando se passaria ou não algum carro.
Era um sábado próximo do verão, então estava um dia quente e o galere todo de Floripa resolveu se dirigir às praias, o que deixou a cidade meio que vazia, principalmente naquela parte onde estávamos. Tudo perfeito para atingirmos nosso objetivo. Nem tinha muita necessidade do pessoal ficar nas esquinas vendo se vinham carros, mas éramos precavidos e o fizemos mesmo assim.
Um de meus amigos, conhecido como Bozo ficou na esquina mais próxima de onde acenderíamos o rojão. Ninguém lembra como ele ganhou esse apelido. Ele não parecia com o palhaço, apesar de fazer algumas palhaçadas. Mais parecia um trombadinha. Era um dos membros mais úteis de nossa “gangue” de delinquentes-wannabe. Virava seu boné da Billabong cinza e surrado para trás, metia a marra de malandro e liderava o comboio, utilizando sua aparência e links sociais para nos afastar do resto da malacada.
Bozo era um pouco convencido e confiante demais, talvez tenha sido por isso que nos ferramos. Mas que também, se não fosse por ele, isso não teria acontecido. Ele olhou apenas duas vezes para a direção que cuidava, não julgou ser necessário mais que isso.
Ficamos eu e Escobar para acender o rojão, colocar na lata e despejá-la no lixeiro. A parte mais perigosa – afinal, poderíamos perder uma mão ou mais com isso – para os membros mais experientes do grupo. Eu gostava de pensar isso na época, hoje acho que na verdade éramos os dois mais retardados.
Sobre Escobar, nada tinha a ver com Dom Casmurro. Naquela época ainda não tivemos o desprazer de sermos forçados a ler a maior obra da literatura brasileira. Escobar tinha esse apelido em homenagem ao ícone colombiano e narcotraficante Pablo Escobar. Nosso amigo Escobar não recebeu esse nome por que usava drogas, alias, acho que nunca usou, mas por que durante as aulas em alguns momentos ele ficava parado olhando para o nada e viajando em pensamentos, também falava pouco e baixo, e como as vezes demorava para responder quando o chamávamos enquanto praticamente dormia de olhos abertos, foi apelidado de drogado.
Ai o apelido foi evoluindo. Passou de Baseado, Maconha, Valderrama, Mestre Cannabis, até chegar ao último level: Pablo Escobar. Ele ainda não se ajudava, carregando sempre dois ou mais isqueiros nos bolsos. Dizia que eram para os rojões. A gente acreditava, mas continuava zoando assim mesmo.
Escobar sacou seu isqueiro Bic amarelo e pediu para que eu fizesse a última checagem antes de prosseguirmos com o plano. Gritei para os dois amigos num extremo da rua. Eles olharam para os lados e depois, mais inteligentes que o idiota aqui que berrou, fizeram sinal de positivo. Escobar já estava puto com a atenção desnecessária que eu atrai. Virei para o outro lado, e meu amigo Cachaça fez também sinal de positivo.
Um aprofundamento maior sobre Cachaça e seu apelido ficam para uma próxima vez. O que mais ele tem são história envolvendo suas burrices homéricas. Essa foi uma das únicas vezes que não passou de um coadjuvante. Faltava o último, nosso amigo trombadinha.
Bozo também fez o sinal de positivo. Na hora eu devia ter percebido que ele não olhou para seu lado, como os outros, precavidos, o fizeram. Ele ainda completou, dizendo:
“Tudo limpo, irmão. Fogo no buraco!” E riu. Ainda sob os efeitos da jogatina visceral de CS.
Quando voltei-me para Escobar, quase falei “Go, go, go”. Por algum motivo não o fiz. E me arrependo. Teria aumentado ainda mais a mágica do momento. Éramos quase os terroristas plantando a bomba na B1 da Aztec.
Antes que eu pudesse perceber, o rojão estava aceso e dentro da lata de coca-cola. Tendo tal artefato de destruição em mãos, desesperei-me por alguns segundos. Olhei para os lados e minhas pernas bateram no chão, como se querendo correr mas não conseguindo sair do lugar. Escobar, me vendo protagonizar tamanha idiotice, pegou a lata da minha mão e com toda sua experiência caminhou até o lixeiro. Plantou a bomba na B1 e ficamos ali, parados apreciando o momento.
O pensamento de sair correndo ainda não nos havia passado pela cabeça. Foi quando escutamos um carro. Vinha de onde estava Bozo. Ele, de costas, virou-se para a esquina. E girou logo em seguida.
Bozo estava branco. Tão branco quanto a pintura na lataria do carro que surgiu por trás dele. Escobar e eu acompanhamos Bozo. Não achava ser possível ficar mais branco do que eu já era. Eu não tinha espelho na hora pra ver, mas tinha certeza que estava quase um albino.
Eram dois policiais na viatura, o motorista olhou para nós três com desconfiança. Deve ter pensado que três retardados parados naquela parte vazia da cidade só poderiam estar fazendo alguma merda. Mas seu desconfiômetro falho fez com que prosseguisse. De nada adiantou. Ele iria parar de qualquer forma dentro de segundos.
O rojão devia estar há mais de três metros de onde eu estava, e mesmo dentro da lata, e dentro do lixeiro, eu conseguia ouvir o barulho do fogo queimando o pavio. Parecia uma cabeça de fósforo riscando e acendendo eternamente. Essa foi nossa trilha sonora. O pavio, mais o barulho do motor da viatura, um Uno que já devia ter mais de 10 anos que mais parecia uma porca no cio oicando, ou gritando, whatever. Ela anunciou estar próxima do fim, quando a fumaça que saia do pavio começou a surgir de dentro do lixeiro.
Isso me trouxe de volta à realidade. Eu olhei para Escobar. Escobar olhou para mim. Bozo olhou para nós dois. A voz eletrônica do rádio do CS deve ter gritado em uníssono em nossas cabeças. “Get out of here, it’s gonna blow!”
Eu fui o primeiro a disparar. Fui direto para a rua que a viatura veio. Me deu um estalo ou alguma coisa parecida e lembrei que ela era de mão única. Nunca que os policiais poderiam voltar por ali, teriam de pegar uma das ruas paralelas e depois nos alcançar em alguma outra esquina.
Eu nunca corri tanto em minha vida. Não sei como consegui ficar na frente de Escobar e Bozo. Isso não aconteceria em uma corrida com outras circunstâncias. Não sei como, mas quando olhei para trás segundos depois, Cachaça e nossos outros dois amigos nos acompanhavam na correria. Ouvimos um barulho.
Foi uma das explosões mais altas que ouvi na minha vida. Acho que sentiria o chão tremer se não tivesse tão ocupado correndo. Os carros próximos da explosão, por outro lado, sentiram. Dois alarmes dispararam, seguidos da sirene da polícia.
Acho que aquilo deu um boost ainda maior na nossa corrida. Asapha Powell ficaria orgulhoso do tempo que fizemos ao percorrer os 200 metros que separava o lixeiro despedaçado do Supermercado que adentramos.
As pessoas no estabelecimento pararam para observar os seis moleques invadirem o supermercado desesperados.
Há alguns anos um havaiano chamado Israel alguma coisa fez um cover de Somewhere Over The Rainbow – eu recomendo, muito bom – ele morreu algum tempo depois devido ao excesso de gordura. O cara era imenso, gigante, colossal. O segurança do supermercado era quase do tamanho dele.
2/3 do corredor a nossa frente estava ocupado pela massa do cara. Tivemos de parar.
“Que porra é essa?” Perguntou delicadamente.
Bozo, malandragem pura, respondeu:
“É a maratona, mano”
Naquele final de semana ia ocorrer uma maratona aqui na cidade. O Ironman. Bozo, perspicaz, utilizou-se daquele acontecimento para nos livrar. Claro que o imenso segurança não ia engolir aquela, mas a cara de WTF feita por ele nos deu tempo o suficiente para contornar aquela montanha de terno e continuar com a corrida.
Seguimos até o final do supermercado, onde havia uma escadaria que levava ao estacionamento. Descemos por ela atravessamos a garagem. Cachaça quase foi atropelado por um carrinho de supermercado conduzido pelo velho da Aveia Quaker. A saída da garagem dava para o lado direito da entrada. Por uma infelicidade do caralho, para a mesma rua em que viemos.
Apertei o foda-se e segui em frente. Os outros fizeram o mesmo, vendo que não havia outra alternativa. Lembrei de um prédio que estava sendo construído naquela rua, e fomos até lá. Era um edifício executivo, então possuía um grande estacionamento na frente. Como não estava pronto, não tinha guarita nenhuma la na frente, e por sorte, nenhum segurança ou pedreiro também.
Quando entrei vi na minha esquerda uma construção menor e fui para atrás dela. Era o lugar onde ficavam o gás e algum encanamento, sei lá. Só parei quando dei de cara com a parede. Finalmente consegui respirar.
Os meus amigos começaram a chegar. Primeiro Cachaça, e em seguida Bozo. Este, teve uma brilhante idéia.
Segurou em uma placa próxima e usou o peso do corpo para girar, sem que precisasse perder velocidade pra fazer a curva. Genial, se ele não tivesse tirado os pés do chão o tempo todo. Ele girou 360º e deu de cara com Escobar. Os dois caíram no chão. Os outros dois que faltavam não conseguiram ver Bozo e Escobar caídos de onde estavam, então vieram direto e tropeçaram. Eu vi de longe um deles passar voando pela casa de gás onde estávamos e indo parar na primeira vaga do estacionamento. O outro caiu em cima dos dois primeiros.
Cachaça, no auge de seu espírito de porco lendário, não se conteve e gritou.
“Montinhooo!”
Saiu correndo e pulou em cima dos três. Ouvi as palavras “filho da puta” em três vozes diferentes, diversas vezes.
Fui ajudar meu amigo voador a se levantar primeiro, e depois Cachaça e seus amontoados.
Nós ficamos mais de 10 minutos ali escondidos, mais para recuperar o fôlego do que por precaução. Bozo se ofereceu a usar suas habilidades stealth de ladino para ir lá fora na rua e ver se a barra estava limpa, mas achamos que aquele já tinha sido um dia cheio para o amigo aprendiz de malaco.
Escobar foi no lugar dele e voltou pouco depois falando que tava tudo tranqüilo. Uns quinze minutos depois eu chegava em casa, quando sou recebido por minha mãe com uma cara de preocupada.
“Filho, eu ouvi um barulho la da rua. Foram vocês?”
“Barulho, mãe?” Eu jamais conseguiria mentir para minha mãe, nem se quisesse. Ela parece que lê mentes. Até a dos cachorros ela consegue ler. Então falei a verdade. “Não mãe, é que a gente só tava estourando uma bombinha” Até hoje eu rio da “bombinha”.
“Ah ta” Ela disse. Eu também rio disso. Ela pegou o pano e voltou a secar a louça como se nada tivesse acontecido.
Fui pro meu quarto, liguei o PS2 e joguei GTA. Nunca soubemos se nossa granada de estilhaços funcionou de verdade, algumas horas mais tarde voltei para o ground zero e a única coisa que encontrei foi a barra de ferro que sustentava o lixo de plástico. Não haviam pedaços azulados por perto, e nem os avermelhados da latinha de coca. Sumiram. Ou se espalharam. Ou foram retirados. Não sei.


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