terça-feira, 30 de junho de 2009

A Lenda de Billie Jean (2)

MITO é MITO. E merece dois posts seguidos.

Claro que este será muito menor do que o anterior, até porque, ao contrário do que se espera de alguém que tem um blog, a escrita nunca foi o meu forte. Na verdade a sensação que me vem quando estou diante de um novo post do blog com, aparentemente, mais de 100 linhas, ou de um livro com mais de 100 páginas (sem figuras, mais de 5), uma questão de 6 linhas de direito processual, entre outros, é a mesma que vem a alguns - dentre eles o meu provável único leitor, MAC - quando está diante do inofensivo X na matemática. Provavelmente pensar em ler a trilogia do senhor dos anéis seja equivalente a incluir o Y e Z na mesma equação, com parênteses e colchetes.

Ainda assim, estou aqui para comentar sobre a perda do tio Michael Jackson. Apesar de um tanto infantil e piegas, "tio" pra mim é status superior a "sir". E se antes somente uma pessoa poderia lançar um cd póstumo denominado "Legend", também posso afirmar que esta também era uma das únicas que merecia ser chamada, por mim, de "tio".

Michael Jackson é o unico ser com quem eu já me peguei imaginando a seguinte cena: antes do show começar, a porta do camarim entreaberta e lá estava Michael, sentado no banquinho, talvez um pouco pensativo, esperando a hora do show começar. Sim, vamos ignorar os prováveis 500 seguranças e mais 80 pessoas lá dentro do negócio. Retomando: Michael sentado, olhava para o chão, talvez um pouco triste. Eu entro lá sem que ninguém me veja, chego perto e falo baixo: "Michael, eu acredito em ti." E peço um abraço. E, claro: "Me ensina a fazer o moonwalk? RSRS"

Claro que eu tenho noção de que essa situação seria impossível. O fato é que agora eu tenho certeza disso, pois ele não está mais entre nós. Mas em algum lugar está, e inventando uns passos legais com Gesus.

O post dedicado termina com, talvez, a maior homenagem espontênea ao Mito já exibida na televisão brasileira. Ao menos a mais genuína delas. Atalho para o tubão:


domingo, 28 de junho de 2009

A Lenda de Billie Jean


De uns anos pra cá - dois, talvez três - eu peguei um costume muito peculiar. Passei a adotar gírias em meu cotidiano. Mas não gírias comuns, e sim gírias de fontes midiáticas, predominantemente da Internet. Não eram coisas nerds e geeks como owned, pwned e coisas parecidas, apesar de ter me pego duas vezes pensando comigo mesmo "esse cara foi ownado".

Essas gírias são gírias, e também servem de adjetivos. Gramaticalmente, elas são substantivos. Uso-as para fazer homenagem, completar a descrição de alguém, etc. Exemplos?


Mestre.

Schwarzenegger é um mestre. Mestre Schwarzenegger. Mestre Stallone. Mestre Van Damme. Mestre Bruce Willis. Recentemente, Jason Statham tornou-se um mestre. Não só de filmes provém os mestres. Eles veem da música, futebol, cultura pop, cultura inútil, cultura nerd. Snake é mestre. Don Corleone é mestre. Seu Madruga mestre semi-supremo. Billie Jean Davy é... mestra? Jan futuramente será uma. Ninja é mestre inspirador. George Lucas é mestre. Darth Vader é mestre. Indy, Han Solo, o próprio Harrison Ford. Sidney Magal. Tim Burton. Roberto Carlos (ambos). Patrick M'boma. T-800. Urdnod Wrex. Morgan Freeman. Kanu. Zé Ramalho. Jack Nicholson. Bob Dylan. Gimli "AND MY AXE" são mestres. A lista é grande. Mas eles não são tantos assim.

Ah, William Gibson é outro mestre semi-supremo. Sem ele eu não estaria aqui. No blog, eu digo.

Outra palavra?


Épico.

Sucintamente, a definição de épico é algo estrondosamente dotado de foderosidade suprema. Rambo. Todos eles. Rocky. Também todos eles. O Demolidor, e parei de Stallone por aqui. Conan é épico. Exterminador do Futuro 1 e 2 são indubitavelmente épicos. O 3, talvez. O Vingador do Futuro é épico. Comando para Matar é épico. True Lies é absurdamente épico. Predador, além de épico, ensina a todos nós como agir como homens. Se você quer ser macho, independente do sexo, assista Predador. O Último Grande Herói é épico. Até mesmo Um Tira No Jardim de Infância é épico. E ele ainda nos ensina que "meninos tem pênis e meninas tem vagina". Arnoldão, sem dúvidas, foi um de nossos grandes professores. Como os Mestres, também os Épicos não vivem só de filmes. Neuromancer é épico, Monalisa Overdive é épico. Metal Gear Solid é épico. Todos eles. E o 4 ainda nos ensina novos conceitos de epicidade. Halo é épico. Mass Effect é épico. Star Wars é épico. Knights of the Old Republic, O Arco-Íris da Gravidade, Show do Milhão, bolachas Passatempo, batatas-fritas, o bagulho que o Maurício de Sousa fumou. Todos esses são épicos. Led Zepellin é ÉPICO. Com letras maiúsculas.

Escrever Metamorfose Ambulante aos 13 anos é épico.


Deuses

Terceiro e último, existe o termo Deuses. Não é necessária alguma explicação. Jimmy Page é Deus. Jimi Hendrix é Deus. Janis Joplin é Deus, pois me sentiria desconfortável de chamá-la de deusa. Outros superam seu status de mestre e tornam-se também, deuses. Arnoldão, Hideo Kojima, Seu Madruga, Bob Dylan. Snake. Tony Montana. Silvio Santos. Bob Marley. Ferris Bueller.

O que me entristece é que nunca vou lembrar de todos eles.

Finalizando, e sendo sincero, admitindo que esse foi o motivo do meu post, eu gostaria de comentar dois casos. Duas novas adições.

O primeiro é o Lúcio.


Eu sempre botei fé nele. Sempre vi no monocelha o xerife que precisávamos. O cara correto, íntegro e com moral pra xingar todo mundo na hora que precisa. Criticaram ele. Criticaram incessantemente Lúcio. Poucas vezes tiveram razão. Mas esse cara bronco, desengonçado e pedreiro que baixa o santo de vez em quando e o filho da puta faz uma jogada mágica, é campeão do mundo, campeão da américa e da copa das confederações. Duas vezes. Ontem xingaram ele mais algumas vezes. Ele foi descartado pelo seu clube, o Bayern de Munique. Hoje ele levantou a taça da Copa das Confederações. Levantou, literalmente. Ele era o capitão. E fez o gol da virada, que também foi o gol da vitória.

Ele sempre foi, mas hoje ele mereceu essas linhas, essas fotos. Mereceu levantar aquela taça.

Lúcio é Mestre.


O último ponto a comentar, é a minha real e verdadeira razão desse post. Fiquei em dúvida se falava isso direto, sem enrolar como eu tanto adoro fazer, mas o Lúcio, mais do que todos hoje, merecia uma menção. E para isso eu precisava introduzir esses dois conceitos. Foi então que decidi falar de mestres, épicos e deuses. A minha última homenagem não se trata de nenhuma delas em específico, ou talvez, pela perspectiva certa, seja de fato todos eles juntos. É claro, eu só posso estar falando de uma pessoa. Eu não quero comentar o que ele foi, o que fez, o que deveria ter feito, o que deixou de fazer. Isso renderia 40 posts, e eu não tenho tempo pra isso, por mais que ele merecesse. Eu vou tentar ser breve. Vou começar com um limite de palavras para falar de Michael, mesmo sabendo que vou ultrapassá-lo.

Ele transcendeu os meus conceitos, que não são lá grande coisa, e também esse fato não tem tanta importância. Só que ele trascendeu outra coisa. A própria mídia. Ele a revolucionou, moldou, liderou. Isso foi esquecido quando uma série de infortúnios começaram a surgir por todos os lados. Alguns nunca foram provados. Outros são mistérios até hoje. Esses infortúnios tiveram muita força nas últimas décadas, o bastante para afetar o artista e sua imagem de uma forma semelhante ao ostracismo. Até ele anunciar um recomeço.

E então ele morreu. E toda a vida dele voltou para a mídia. Do conturbado início ao conturbado fim. Todas as matérias lembravam ambos os lados da carreira dele. A ascenção e decadência. Só que todas, sem exceção, terminavam seu material apresentado com uma conclusão, ainda que não fosse pronunciada e escrita. Essa conclusão, de maioria imagens, músicas, clipes, mostrava a verdade sobre Michael. Quando um clipe com imagens dele, em silêncio - pois a música era desnecessária - encerra o Jornal Nacional e outros programas da BBC, ABC, CNN e qualquer outro canal do mundo, nós chegamos a uma conclusão. Eu, pelo menos, cheguei a ela.

Michael Jackson é Mito. E um Mito sobrevive a quaisquer especulações e acusações. Um mito é maior do que tudo isso. Ele sobrevive ao tempo, ele forma a história. Ele podia ter feito isso com um só disco, mas ele foi além. Ele sabia que podia mais, e conseguiu.

Podem cháma-lo do que quiser, de ofensas, xingamentou ou títulos - Rei do Pop, o qual ficou conhecido - eu mesmo posso chamá-lo assim inconscientemente, mas a palavra mito sempre acompanhará, ainda que silenciosa, qualquer pronúncia ou referência ao seu nome e sua obra.

Termino com duas conclusões:

1- ele é o único artista que pode, e merece, a partir de agora, ter um disco lançado com o nome Legend. Apenas um cara em toda a história da música teve essa moral. Michael deve ser o segundo.

2- O mundo, no dia 26 de Junho de 2009, amanheceu menos dançante.

O Mito.
Vaya con dios.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Querem ensinar o padre a rezar a missa

Random people:
You're now chatting with a random stranger. Say hi!
Stranger: ㅎㅇㅎㅇ
You: ronaldo
Your conversational partner has disconnected.



Algum china:
You're now chatting with a random stranger. Say hi!
Stranger: ni shi zhong guo de ma
You: o adriano ta me ouvindo?
Stranger: I mean where are you come from
You: I mean what is your name


Ucraniana que estuda Relações Internacionais:
Stranger: in brazil there are ocean?
E não manja nada de geografia.

Stranger: tell me something on brazilian=)
You: Ma-ma-oee roque, vo joga um aviãozinho de dinheiro
You: it means: every little thing is gonna be alright
Stranger: i was expecting you to say muito bonita ukrainian girls =(
You: Oh...
You: let me do right then
You: funk do joel e as potranca ucrania
Não resisti.
You: and you know something about brazil?
Stranger: braziil
Stranger: there are a carnaval
Stranger: and i like a t-shirt with brazilian flag
Stranger: i think it's very posisive=)
Stranger: in brazil a lot of bananas
Stranger: and almost people dance well
Stranger: this is my thoughts 'bout your country=)
Stranger: and maradona of cours
You: what
You have disconnected.
Ucranianas não manjam de futebol.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Os 8 ensinamentos da faculdade.

1) A cara de pau jamais terá limites.

2) Tem prova e não sabia? Se for humanas, talvez fugir possa ser um bom negócio. Se for exatas, fugir pra estudar 5x mais não será o suficiente para a prova 15x mais difícil que o professor filho da puta vai te dar de segunda chance. E tu ainda vai ter que fazê-la numa sala underground com dois funcionários conversando sem parar. E com a rádio Antena 1 ligada.

3) Ou seja, melhor fazer no dia e tirar um 7,5 milagre do que um 3,5 suado na prova de segunda chamada. Porque é isso mesmo o que vai acontecer. Aliás, as suas maiores notas até o momento são das provas que você ou não sabia que tinha mas resolveu fazer, ou foi, bravamente, pensando que realmente tava fudido.

4) Será cada vez mais natural inventar desculpas pra professor. Parentes vão morrer, você terá diversos "problemas pessoais" que necessitam da piedade e tolerância do professor. E nunca um tio ligado à área da saúde será tão útil em toda a sua vida. Se você só precisou dele a vida inteira pra fazer uma limpeza nos dentes a cada dois anos, agora ele servirá para gerar os atestados mais mirabolantes da sua vida.

5) Você é vagabundo, o seu grupo do trabalho pra entregar e apresentar em sala amanhã é ainda mais. Você vai salvar os vagabundos do teu grupo.

6) Aprendemos a sorrir enquanto o professor te fode. Até o último segundo não podemos perder a esperança de que esse professor fode-a-vida vai te passar pela simpatia.

7) Este mesmo professor vai te rodar e vais pegar ele, sem saber, novamente no próximo semestre. Você tem a consciência de que as chances dele te rodar mais uma vez é <90% mas ainda assim você continua lá. E acredita.

8) Aula é para os fracos. Com o tempo você percebe que estar ou não na sala de aula não faz a menor diferença. O que importa é despertar o seu lado autodidata quando precisar, mesmo sendo alguns instantes antes da prova.

to be continued

A primeira vez que eu corri da polícia.

Isso deve fazer uns 7 anos. Na época estávamos na sétima ou oitava série. Não lembro bem e não to afim de contar nos dedos, mas isso não importa. Foi exatamente no período que começou aquela onde de lan-houses no Brasil, talvez em outros estados tenha acontecido antes, até. Florianópolis adora ser atrasada.

Abriu a primeira lan de Florianópolis, era da franquia Monkey. Meu amigo e os irmãos foram uns dos primeiros cadastrados, números cinqüenta e poucos – o meu era 212 – o maluco gostou tanto daquilo, isso era uma quinta feira, que no dia seguinte chegou na sala de aula falando das maravilhas de Cê Ésse. Pelas palavras dele era algo fantástico, 20 pessoas com seus avatares virtuais se degladiando em arenas de carnificina que iam da desértica Dâst às favelas do Rio.

E era mesmo. Aquilo deu um novo sentido à brincadeira de Polícia e Ladrão, com a diferença que você não tinha que correr atrás de ninguém, e sim sentar a bala neles. Não importava qual o seu time, “CeTê” ou “Terror”, importava matar mais e morrer menos. Eu achava que aquilo devia ser tão emocionante quanto transgredir a Lei na vida real. Descobriria mais tarde que estava enganado.

Isso vai parecer nerdisse extrema, mas nós nos reuníamos na Monkey todo sábado de manhã, lá pelas 9 horas e aguardávamos até que ela abrisse entre as 10 e 10 e meia da manhã.

Mas não éramos os únicos. Isto é, nas primeiras semanas até que fomos, mas no passar do tempo até as pessoas “normais” começaram à fazê-lo. Amanhecer na porta da lan-house. Sentimos-nos menos nerds e mais sociáveis naquela época. Uma vez tinha tanto nego junto que mais de cinco pessoas tentaram passar pela porta de vidro ao mesmo tempo e a derrubaram. Mas isso é outra história.

Então, continuando, para aproveitar essas tardes de sábado, o pessoal jogava por duas ou três horas na Lan, almoçava e ia pro cinema, ou invadia minha casa pra comer Hershey’s, ver filmes, jogar Winning Eleven e GTA San Andreas.

Delinquentes de cabeça fraca que éramos, talvez influenciados pela bandidagem virtual de GTA, aproveitávamos aquelas tardes para praticar nossos atos de delinqüências juvenis. Aquelas coisas retardadas que qualquer moleque faz. Explodir rojões perto de hospitais, furar pneus de carro, riscar a lataria com moedas, tocar a campainha e sair correndo, passar trotes de orelhão, explodir lixeiros com foguetes 12x1.

Em um desses sábados resolvemos experimentar como seria um rojão dentro de uma latinha de coca cola, dentro de um lixeiro. A idéia era produzir uma granada de estilhaços caseira. Procuramos uma rua mais deserta. Coincidentemente era uma perto de onde eu morava. Estávamos em seis delinqüentes, o bastante para cobrir todas as saídas da rua, checando se passaria ou não algum carro.

Era um sábado próximo do verão, então estava um dia quente e o galere todo de Floripa resolveu se dirigir às praias, o que deixou a cidade meio que vazia, principalmente naquela parte onde estávamos. Tudo perfeito para atingirmos nosso objetivo. Nem tinha muita necessidade do pessoal ficar nas esquinas vendo se vinham carros, mas éramos precavidos e o fizemos mesmo assim.

Um de meus amigos, conhecido como Bozo ficou na esquina mais próxima de onde acenderíamos o rojão. Ninguém lembra como ele ganhou esse apelido. Ele não parecia com o palhaço, apesar de fazer algumas palhaçadas. Mais parecia um trombadinha. Era um dos membros mais úteis de nossa “gangue” de delinquentes-wannabe. Virava seu boné da Billabong cinza e surrado para trás, metia a marra de malandro e liderava o comboio, utilizando sua aparência e links sociais para nos afastar do resto da malacada.

Bozo era um pouco convencido e confiante demais, talvez tenha sido por isso que nos ferramos. Mas que também, se não fosse por ele, isso não teria acontecido. Ele olhou apenas duas vezes para a direção que cuidava, não julgou ser necessário mais que isso.

Ficamos eu e Escobar para acender o rojão, colocar na lata e despejá-la no lixeiro. A parte mais perigosa – afinal, poderíamos perder uma mão ou mais com isso – para os membros mais experientes do grupo. Eu gostava de pensar isso na época, hoje acho que na verdade éramos os dois mais retardados.

Sobre Escobar, nada tinha a ver com Dom Casmurro. Naquela época ainda não tivemos o desprazer de sermos forçados a ler a maior obra da literatura brasileira. Escobar tinha esse apelido em homenagem ao ícone colombiano e narcotraficante Pablo Escobar.  Nosso amigo Escobar não recebeu esse nome por que usava drogas, alias, acho que nunca usou, mas por que durante as aulas em alguns momentos ele ficava parado olhando para o nada e viajando em pensamentos, também falava pouco e baixo, e como as vezes demorava para responder quando o chamávamos enquanto praticamente dormia de olhos abertos, foi apelidado de drogado.

Ai o apelido foi evoluindo. Passou de Baseado, Maconha, Valderrama, Mestre Cannabis, até chegar ao último level: Pablo Escobar. Ele ainda não se ajudava, carregando sempre dois ou mais isqueiros nos bolsos. Dizia que eram para os rojões. A gente acreditava, mas continuava zoando assim mesmo.

Escobar sacou seu isqueiro Bic amarelo e pediu para que eu fizesse a última checagem antes de prosseguirmos com o plano. Gritei para os dois amigos num extremo da rua. Eles olharam para os lados e depois, mais inteligentes que o idiota aqui que berrou, fizeram sinal de positivo. Escobar já estava puto com a atenção desnecessária que eu atrai. Virei para o outro lado, e meu amigo Cachaça fez também sinal de positivo.

Um aprofundamento maior sobre Cachaça e seu apelido ficam para uma próxima vez. O que mais ele tem são história envolvendo suas burrices homéricas. Essa foi uma das únicas vezes que não passou de um coadjuvante. Faltava o último, nosso amigo trombadinha.

Bozo também fez o sinal de positivo. Na hora eu devia ter percebido que ele não olhou para seu lado, como os outros, precavidos, o fizeram. Ele ainda completou, dizendo:

“Tudo limpo, irmão. Fogo no buraco!” E riu. Ainda sob os efeitos da jogatina visceral de CS.

Quando voltei-me para Escobar, quase falei “Go, go, go”. Por algum motivo não o fiz. E me arrependo. Teria aumentado ainda mais a mágica do momento. Éramos quase os terroristas plantando a bomba na B1 da Aztec.

Antes que eu pudesse perceber, o rojão estava aceso e dentro da lata de coca-cola. Tendo tal artefato de destruição em mãos, desesperei-me por alguns segundos. Olhei para os lados e minhas pernas bateram no chão, como se querendo correr mas não conseguindo sair do lugar. Escobar, me vendo protagonizar tamanha idiotice, pegou a lata da minha mão e com toda sua experiência caminhou até o lixeiro. Plantou a bomba na B1 e ficamos ali, parados apreciando o momento.

O pensamento de sair correndo ainda não nos havia passado pela cabeça. Foi quando escutamos um carro. Vinha de onde estava Bozo. Ele, de costas, virou-se para a esquina. E girou logo em seguida.

Bozo estava branco. Tão branco quanto a pintura na lataria do carro que surgiu por trás dele. Escobar e eu acompanhamos Bozo. Não achava ser possível ficar mais branco do que eu já era. Eu não tinha espelho na hora pra ver, mas tinha certeza que estava quase um albino.

Eram dois policiais na viatura, o motorista olhou para nós três com desconfiança. Deve ter pensado que três retardados parados naquela parte vazia da cidade só poderiam estar fazendo alguma merda. Mas seu desconfiômetro falho fez com que prosseguisse. De nada adiantou. Ele iria parar de qualquer forma dentro de segundos.

O rojão devia estar há mais de três metros de onde eu estava, e mesmo dentro da lata, e dentro do lixeiro, eu conseguia ouvir o barulho do fogo queimando o pavio. Parecia uma cabeça de fósforo riscando e acendendo eternamente. Essa foi nossa trilha sonora. O pavio, mais o barulho do motor da viatura, um Uno que já devia ter mais de 10 anos que mais parecia uma porca no cio oicando, ou gritando, whatever. Ela anunciou estar próxima do fim, quando a fumaça que saia do pavio começou a surgir de dentro do lixeiro.

Isso me trouxe de volta à realidade. Eu olhei para Escobar. Escobar olhou para mim. Bozo olhou para nós dois. A voz eletrônica do rádio do CS deve ter gritado em uníssono em nossas cabeças. “Get out of here, it’s gonna blow!”

Eu fui o primeiro a disparar. Fui direto para a rua que a viatura veio. Me deu um estalo ou alguma coisa parecida e lembrei que ela era de mão única. Nunca que os policiais poderiam voltar por ali, teriam de pegar uma das ruas paralelas e depois nos alcançar em alguma outra esquina.

Eu nunca corri tanto em minha vida. Não sei como consegui ficar na frente de Escobar e Bozo. Isso não aconteceria em uma corrida com outras circunstâncias. Não sei como, mas quando olhei para trás segundos depois, Cachaça e nossos outros dois amigos nos acompanhavam na correria. Ouvimos um barulho.

Foi uma das explosões mais altas que ouvi na minha vida. Acho que sentiria o chão tremer se não tivesse tão ocupado correndo. Os carros próximos da explosão, por outro lado, sentiram. Dois alarmes dispararam, seguidos da sirene da polícia.

Acho que aquilo deu um boost ainda maior na nossa corrida. Asapha Powell ficaria orgulhoso do tempo que fizemos ao percorrer os 200 metros que separava o lixeiro despedaçado do Supermercado que adentramos.

As pessoas no estabelecimento pararam para observar os seis moleques invadirem o supermercado desesperados.

Há alguns anos um havaiano chamado Israel alguma coisa fez um cover de Somewhere Over The Rainbow – eu recomendo, muito bom – ele morreu algum tempo depois devido ao excesso de gordura. O cara era imenso, gigante, colossal. O segurança do supermercado era quase do tamanho dele.

2/3 do corredor a nossa frente estava ocupado pela massa do cara. Tivemos de parar.

“Que porra é essa?” Perguntou delicadamente.

Bozo, malandragem pura, respondeu:

“É a maratona, mano”

Naquele final de semana ia ocorrer uma maratona aqui na cidade. O Ironman. Bozo, perspicaz, utilizou-se daquele acontecimento para nos livrar. Claro que o imenso segurança não ia engolir aquela, mas a cara de WTF feita por ele nos deu tempo o suficiente para contornar aquela montanha de terno e continuar com a corrida.

Seguimos até o final do supermercado, onde havia uma escadaria que levava ao estacionamento. Descemos por ela atravessamos a garagem. Cachaça quase foi atropelado por um carrinho de supermercado conduzido pelo velho da Aveia Quaker. A saída da garagem dava para o lado direito da entrada. Por uma infelicidade do caralho, para a mesma rua em que viemos.

Apertei o foda-se e segui em frente. Os outros fizeram o mesmo, vendo que não havia outra alternativa. Lembrei de um prédio que estava sendo construído naquela rua, e fomos até lá. Era um edifício executivo, então possuía um grande estacionamento na frente. Como não estava pronto, não tinha guarita nenhuma la na frente, e por sorte, nenhum segurança ou pedreiro também.

Quando entrei vi na minha esquerda uma construção menor e fui para atrás dela. Era o lugar onde ficavam o gás e algum encanamento, sei lá. Só parei quando dei de cara com a parede. Finalmente consegui respirar.

Os meus amigos começaram a chegar. Primeiro Cachaça, e em seguida Bozo. Este, teve uma brilhante idéia.

Segurou em uma placa próxima e usou o peso do corpo para girar, sem que precisasse perder velocidade pra fazer a curva. Genial, se ele não tivesse tirado os pés do chão o tempo todo. Ele girou 360º e deu de cara com Escobar. Os dois caíram no chão. Os outros dois que faltavam não conseguiram ver Bozo e Escobar caídos de onde estavam, então vieram direto e tropeçaram. Eu vi de longe um deles passar voando pela casa de gás onde estávamos e indo parar na primeira vaga do estacionamento. O outro caiu em cima dos dois primeiros.

Cachaça, no auge de seu espírito de porco lendário, não se conteve e gritou.

“Montinhooo!”

Saiu correndo e pulou em cima dos três. Ouvi as palavras “filho da puta” em três vozes diferentes, diversas vezes.

Fui ajudar meu amigo voador a se levantar primeiro, e depois Cachaça e seus amontoados.

Nós ficamos mais de 10 minutos ali escondidos, mais para recuperar o fôlego do que por precaução. Bozo se ofereceu a usar suas habilidades stealth de ladino para ir lá fora na rua e ver se a barra estava limpa, mas achamos que aquele já tinha sido um dia cheio para o amigo aprendiz de malaco.

Escobar foi no lugar dele e voltou pouco depois falando que tava tudo tranqüilo. Uns quinze minutos depois eu chegava em casa, quando sou recebido por minha mãe com uma cara de preocupada.

“Filho, eu ouvi um barulho la da rua. Foram vocês?”

“Barulho, mãe?” Eu jamais conseguiria mentir para minha mãe, nem se quisesse. Ela parece que lê mentes. Até a dos cachorros ela consegue ler. Então falei a verdade. “Não mãe, é que a gente só tava estourando uma bombinha” Até hoje eu rio da “bombinha”.

“Ah ta” Ela disse. Eu também rio disso. Ela pegou o pano e voltou a secar a louça como se nada tivesse acontecido.

Fui pro meu quarto, liguei o PS2 e joguei GTA. Nunca soubemos se nossa granada de estilhaços funcionou de verdade, algumas horas mais tarde voltei para o ground zero e a única coisa que encontrei foi a barra de ferro que sustentava o lixo de plástico. Não haviam pedaços azulados por perto, e nem os avermelhados da latinha de coca. Sumiram. Ou se espalharam. Ou foram retirados. Não sei.

domingo, 14 de junho de 2009

Brasil, a Saga: Pt 2

Repórter: Por quê você fez isso?
Indivíduo: Hã??
R: Por quê você fez isso?
I: ...Sei, não.
R: Já tem passagem pela polícia?
I: ...Tenho.
R: Você é de onde?
I: Salvador...
R: Tá aqui fazendo o quê?
I: Eu não sei... Eu só sei que eu CAÍ DA ESPAÇUNAVE... Eu fui cainu, eu fui cainu, bati ali, bati aí, saí batenu assim...
R: Você é de outro planeta?
I: É...
R: Você bebe cachaça?
I: SÓ NÃO FUMO MACONHA.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

João Braços e sua vida.

As vezes me pego refletindo se apenas uma linha é o bastante para descrever uma ação inteira. Penso que não, ainda mais se dentro ou por entre essa ação existirem pensamentos, dúvidas, falas exaltadas ou falas nunca ditas. Mas uma linha pode contar sim, uma história. 

Ernest Hemingway certa vez protagonizou um momento épico da literatura - coisa que ele fez mais de uma vez -, quando desafiado a escrever uma história em apenas seis palavras,  apresentou: "à venda: sapatos de bebês. Nunca usados". 

Então, sinto-me obrigado a acreditar que uma linha e apenas ela é capaz de levar alguém do Brasil à Mombasa, Johanesburgo, à puta-que-pariu e de volta. E que três são capazes de contar a história de um cara que não tinha braços, comprou um carro e bateu na primeira curva. Uma carreta desabou em cima e ele perdeu as pernas. Morreu dias depois e o nome dele era João, o cara mais fodido que já conheci. Nunca soube como ele conseguiu trocar as marchas.